Temer preso e a festa por um país humilhado

Michel Temer, três anos atrás, era, na mídia e no Congresso controlado por Eduardo Cunha, um varão de Plutarco.

Deliciavam-se com cartas conspiratórias – verba volant, script manent – contra Dilma Rousseff.

Subiu ao trono num circo chocante na Câmara dos Deputados, com direito a alô mamãe, saudações aos cachorrinhos e papagaios e muito papel picado.

Era incensado pela fina flor da crônica política: “é até bonito”, escreveu Ricardo Noblat; “entende tudo de romance”, extasiou-se Eliane Cantanhêde. A cortes de machado nos gastos sociais, saudou-se o como o que faria a “retomada da economia” e que pilotaria, com Henrique Meirelles, a “enxurrada de dólares” que viria para o Brasil com o impeachment sustentado em vagas “pedaladas fiscais”, que dou um doce a quem ainda lembrar exatamente o que seriam.

Hoje, a prisão de  Temer e de outro que, há décadas, sabia-se outro abjeto, Moreira Franco, é saudada como prova da imparcialidade da Justiça e, especificamente, da Lava Jato, cuja franquia carioca, gerida pelo Dr. Marcelo Bretas, opera sem os constrangimentos que a saída de Moro da 13ª Vara Federal de Curitiba e a gula dos procuradores paranaenses impuseram à matriz.

Como em quae tudo o que faz a Lava Jato, os efeitos que causa ao país são incomensuravelmente maiores que o dano que os atos suspeitos provocaram.

Por maiores que sejam os “méritos” de Michel Temer para pagar pelo que faz há tempos e pelo que o moveu ao golpe de Estado, não há motivos para comemoração, a começar pelo que escreve o próprio juiz na ordem de prisão.

Diz que Temer chefiava uma organização criminosa “há 40 anos” Ora, e como é que denunciado tantas vezes, como no caso do portos, em especial a Cia Docas paulista, nada ocorreu. Como não se dizer (e menos ainda fazer) algo sobre os esquemas de pressão e chantagem política que ele, à testa do PMDB, realizava sobre governos, ao menos desde o período Collor-Itamar Franco?

Li a decisão, na íntegra, e parece que será inevitável que ela seja duramente atacada nos tribunais. Primeiro, por conta da prova usada por Bretas para o crime de lavagem de dinheiro – a reforma da casa da filha de Temer, Maristela – ocupar, em outro inquérito, o mesmo lugar de destino das propinas. Depois, pelo argumento isado para afirmar a “continuidade delitiva” sem absolutamente vagos, dizendo apena que vivemos num tempo de transferências eletrônicas de recursos e que seria fácil dar-lhes sumiço, sem dizer nem quando, nem em quê baseava a conclusão.

Embora com o falso argumento de que a prisão de Temer serviria para liquidar o que chama de “vitimismo” do PT com a prisão de Lula – um é um molambo político, neste campo inofensivo, e outro era, simplesmente, o candidato favoritíssimo à Presidência – tenho de reconhecer que há verdade no que diz Merval Pereira, em seu comentário sobre o fato:

Diz que é “uma demonstração de força da Lava-Jato, depois da derrota que sofreu no STF.  É o modus operandi deles, dar o troco para deixar a sensação de que não são passíveis de controle. Cada vez que sofrem uma derrota, dão o troco alto.”

É a assunção de que se trata de um organismo estranho à administração normal da Justiça, que pratica atos para “dar trocos”, e troco alto, aos que considera seus adversários políticos e jurídicos.

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