Santayana: asilo de Snowden é armadilha diplomática

O Brasil nunca foi inimigo dos Estados Unidos da América.

A Guerra da Independência que aquele país viveu no final do século 18 foi a inspiração para muitos que desejavam a libertação do Brasil da situação de colônia de Portugal.

Foi, até mesmo, “guru” de estudantes brasileiros na França, que sonhavam com a independência e república no Brasil, embora suas ideias republicanas fossem cheias de limites.

O inverso, porém, não é verdadeiro. Os EUA é que sempre cultivaram, desde a Doutrina Monroe, pretensões de suserania sobre o Brasil e toda a América Latina.

Um suposto antiamericanismo de governos de esquerda, aqui e em outras partes do mundo, sempre foi uma desculpa para a subversão da ordem democrática e a imposição de regimes autoritários e dóceis à colonização econômica.

A “onda” sobre um pedido de asilo que Edward Snowden não solicitou ao Brasil se encaixa neste tipo de armação.

Não que ele não tenha o direito de pedir e o Brasil de conceder.

Mas desqualifica, até por um suposto acesso a informações “secretas” que não nos interessam absolutamente – o que exigimos é que nossas informações reservadas não sejam espionadas, não bisbilhotar os outros – a ação brasileira – correta, firme e bem-sucedida – de ser um dos líderes do protesto contra esta espionagem.

É isso que Mauro Santayanna, com a lucidez e a experiência dos anos de observador da política – a interna e, especialmente, a das nossas relações externas mostra, em excelente artigo que reproduzo abaixo:

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O Brasil e o asilo a Snowden

Mauro Santayana

Um dos principais assuntos da semana, foi a realização de uma reunião da Presidente Dilma, para analisar o asilo a Edward Snowden, em troca de informações sobre as atividades de espionagem da NSA contra cidadãos e autoridades brasileiras.

O assunto surgiu a partir de uma “carta aberta” de Snowden ao povo brasileiro, publicada na “Folha de São Paulo”, e do lançamento de uma campanha em defesa do asilo a ele, com a coleta de assinaturas e o uso de máscaras que reproduzem sua face.

O texto renovou as denúncias a propósito dos riscos que corremos – nós e pessoas de outras nacionalidades – de termos nossas comunicações interceptadas, todos os dias, e de sermos até mesmo chantageados pelos EUA, por nossas atividades na internet.

Ela foi, também, uma mensagem de gratidão ao governo brasileiro, pela atenção dada às denúncias e pelo empenho demonstrado, nas Nações Unidas, para atuar com firmeza em defesa da privacidade como um direito fundamental de todo ser humano.

O que mais chamou a atenção, no entanto, foi a parte em que Snowden afirmava, com relação às investigações que estão sendo realizadas pelo governo brasileiro:

“Expressei minha disposição de auxiliar quando isso for apropriado e legal, mas, infelizmente, o governo dos EUA vem trabalhando arduamente para limitar minha capacidade de fazê-lo, chegando ao ponto de obrigar o avião presidencial de Evo Morales a pousar para me impedir de viajar à América Latina. Até que um país conceda asilo político permanente, o governo dos EUA vai continuar a interferir com minha capacidade de falar.”

Esse trecho foi interpretado como uma espécie de barganha, por meio da qual Snowden estaria oferecendo sua colaboração e informações, em troca de eventual concessão de asilo, pelo governo brasileiro.

Hipótese que foi rapidamente desmentida pelo jornalista Gleen Greenwald, espécie de porta-voz oficioso de Snowden, que afirmou, que, na verdade, ele estaria apenas explicando sua impossibilidade de vir ao Brasil pessoalmente, devido à implacável perseguição que lhe é movida pelo governo norte-americano.

Ao tratar o assunto como uma questão de Estado, o Brasil poderia estar superestimando o fato e caindo em uma armadilha diplomática e institucional. O asilo a Snowden, só se justifica por razões humanitárias, caso estivesse correndo risco de vida, na Rússia, onde está agora, o que não é o caso. Aceitá-lo, em troca de informações, equivaleria moralmente a equiparar-nos aos EUA, fazendo o que eles fizeram conosco, que foi meter o bedelho em nossos assuntos internos.

A mensagem mais importante da carta de Snowden está no final, quando ele declara:

“Se o Brasil ouvir apenas uma coisa de mim, que seja o seguinte: quando todos nos unirmos contra as injustiças e em defesa da privacidade e dos direitos humanos básicos, poderemos nos defender até dos mais poderosos dos sistemas.”

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