Quem conhece Bolsonaro, sabe de que lado ficar. Por Marceu Vieira

Eu poderia dizer que ele foi eleitor do Ciro. Ou que sempre nutriu um inquieto carinho pelo Brizola. Ou que faz e fez tudo isso sempre sendo um repórter correto e equilibrado. Poderia invocar também a amizade de 30 anos e o respeito e o carinho que tem entre os jornalistas do Rio de Janeiro.

Prefiro, porém, dizer que o texto de Marceu Vieira, em seu blog é apenas a manifestação de uma pessoa que testemunhou, como jornalista, a trajetória de Jair Bolsonaro desde a notoriedade que ganhou ao ameaçar detonar bombas num quartel até o personagem deliberadamente “bizarro” que, agora, ameaça dominar o pais.

E que, por isso, sabe que não há lugar no muro, porque a escolha é entre “a civilização, com seus inúmeros defeitos e suas regras vigentes, e o insondável e a ameaça da barbárie.”

Ex-fumantes e ex-petistas

Marceu Vieira, em seu blog

Eu trabalhava na sucursal carioca da “Veja”, em 1987, recém-saído da faculdade de jornalismo, quando a revista publicou uma reportagem sobre um plano do então capitão Jair Bolsonaro, na época aluno da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército, Esao, de pôr bombas em quartéis e em outros lugares estratégicos do Rio pra protestar contra os baixos salários da tropa.

O capitão, ali um jovem de 32 anos, era fonte da repórter Cássia Maria, nossa colega naquela redação da Rua da Passagem 123, em Botafogo, e a ela revelou seu plano.

Lembro a Cássia chegando à redação e relatando o conteúdo da entrevista que havia acabado de fazer. Ela trouxe até um desenho tosco, feito com caneta pelo próprio Bolsonaro, de como seria a explosão da Adutora do Guandu – que, pra quem não sabe, é a principal abastecedora de água do Rio (o desenho é este aí de cima).

A revista, diante da gravidade da ameaça, quebrou o acordo de preservação da fonte e publicou a história, desmentida até hoje pelo Bolsonaro.

Diante do desmentido, aceito pelo ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves, a “Veja” publicaria o desenho na edição seguinte, acompanhado de um longo relato da Cássia, com detalhes da entrevista do capitão.

Bolsonaro era fonte da Cássia desde um ano antes, quando ela havia colhido um depoimento dele pra sessão “Ponto de Vista”, que ocupava a última página da “Veja”. Nele, o então capitão dizia que as baixas renitentes na Academia Militar das Agulhas Negras, naqueles dias, não eram por causa de homossexualidade de oficiais, como havia noticiado o “Jornal do Brasil”, mas pelos “salários baixos”. Por aquele “Ponto de Vista”, Bolsonaro tinha sido punido pelo Exército com 15 dias de prisão, em 1986.

Depois da publicação da matéria de 1987, a gente viveu dias esquisitos na redação da sucursal da “Veja”. Passamos a trabalhar sob proteção, acho que de policiais federais, que acompanhavam a Cássia no trajeto de casa até o trabalho, e vice-versa.

O tempo passou, dali fui pro “Jornal do Brasil”, depois pro “O Dia”, depois de novo pro “JB”, mais adiante pra revista “Época”, em seguida pro “O Globo” – e, nesse período todo, acompanhei a carreira política do Bolsonaro.

Em 1988, ele deixou o Exército, candidatou-se a vereador do Rio, venceu com o voto dos militares (deve isso à democracia, porque soldado nem votava), tornou-se deputado federal, e a trajetória do ex-capitão, a partir dali, todo mundo já conhece.

Bolsonaro prosperou na política vestido de um personagem no qual, com o tempo, ele próprio passou a acreditar. Sempre blasfemou contra os direitos mais básicos das mulheres, dos homossexuais, dos negros, dos índios, dos pobres e de quem é tudo isso junto.

Mais de uma vez, eu, na coluna do Ancelmo Gois, no “O Globo”, recebi do Bolsonaro sugestões de notas que pareciam ser contra ele mesmo: “Pode escrever aí que eu votei pra derrubar isso e aquilo, aqui na Câmara, porque acho isso e aquilo mesmo, tá OK?! Escreve aí que mulher tem mais que isso e aquilo, tá OK?! E que veado é isso e aquilo, tá OK?!…” – e por aí vai.

– Pode escrever aí, tá OK?!

Bolsonaro sabia que se alimentava da bizarrice dessas opiniões. O posicionamento absurdo lhe garantia os votos de uma parcela da população que pensava – pensa – como o personagem que ele havia criado.

Hoje, tenho convicção de que nem a ameaça de explodir bombas pra melhorar os salários dos militares foi verdadeira. Acho mesmo que tudo não passou de encenação.

Agora, esse personagem do qual Bolsonaro não deve se libertar nunca mais está prestes a vencer a eleição pra presidente da República em 2018 pela vontade de mais de 50 milhões de brasileiros. Amaldiçoa a democracia, faz e incentiva a exaltação da ditadura e da tortura, empodera quem discrimina gays, negros, índios e pobres – e, apesar disso, ou sobretudo por isso, está aí quase eleito.

Muita gente lúcida diz que não vai votar no PT “porque o Lula isso, porque o Lula aquilo”. Alguns até argumentam: “Eu já fui petista!” (E qual cri-cri é mais chato: ex-fumante ou ex-petista?) Tento dissuadir os mais queridos. Digo que, em jogo, não está mais o julgamento do Lula, que, seja qual for o resultado da eleição, vai continuar preso. Não tenho conseguido.

Lamento por esses mais queridos, pelo arrependimento que poderão sentir. Lamento pelo que poderão chorar ao ver gente que eles amam sofrer a desdita anunciada com tanta clareza pelo Bolsonaro – agora não mais o Bolsonaro-personagem, mas o cara assumidamente perverso, já tornado real.

Respeito a vontade de quase todos os mais de 50 milhões de brasileiros que, dizem hoje as pesquisas, devem eleger o Bolsonaro no domingo.

Só não digo que respeito a vontade de todos porque, nessa imensidão, há uma parcela irracional, que, como o personagem agora real, desconsidera mesmo a liberdade de orientação sexual, cospe no direito de identidade de gênero, ameaça de extermínio a opção ideológica contrária, discrimina negros e nordestinos e índios, abomina a pobreza e as diferenças, despreza a democracia reconquistada com tanta dor e tantas vidas – e estes merecem é a lei que protege, ou devia proteger, quem exercita a liberdade, ou só respeita a do outro.

Não é preciso ser petista ou esquerdista, ser direitista ou social-democrata, ser mortadela ou coxinha, ser Boulos ou Amoedo, basta ser mãe ou pai, ou só um “cidadão de bem”, desses que o Bolsonaro pretende armar pra matar os “cidadãos de mal”, basta ser isso pra saber de que lado estar no domingo agora, dia 28 de outubro de 2018.

No extremo da ribanceira sobre a qual o Brasil se debruçou, a gente vai ter de escolher entre a civilização, com seus inúmeros defeitos e suas regras vigentes, e o insondável e a ameaça da barbárie.

Pra evitar essa linha de chegada, votei no Ciro Gomes no primeiro turno.

Já que chegamos a ela, voto agora no Fernando Haddad.

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