Outro agosto. Nova tragédia. Por Nilson Lage

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Faz hoje 62 anos que acordei às sete horas da manhã e liguei o rádio, curioso pelo que teria acontecido desde que, cinco horas antes, o desligara, cansado de ouvir Carlos Lacerda repetir a Raul Brunini, que fingia entrevistá-lo, o quanto era importante expulsar do Palácio do Catete o “ditador que navegava em um mar de lama”.

A Rádio Globo, onde falara Lacerda, estava fora do ar. Na Radio Nacional, inesperadamente, Debussy. Só alguns minutos mais tarde entrou o prefixo do Repórter Esso e o locutor anunciou o suicídio, na madrugada, de Getúlio Vargas.

Era o fecho de uma conspiração que transcorreu paralelamente nas esferas política, militar – essencialmente na Aeronáutica, de que provinha o candidato derrotado nas eleições de 1950 e hoje patrono da Força, Brigadeiro Eduardo Gomes –, e na imprensa, movida sob discreta coordenação dos poderosos Diários Associados, de Assis Chateaubriand.

Chateaubriand, no entanto, não se expunha. Na linha de frente da campanha de insultos, calúnia e difamação estava seu ex-funcionário, dono da Tribuna da Imprensa, o mesmo Carlos Lacerda; e O Globo, vespertino regional carioca associado à emissora de ondas médias do mesmo nome. O dono do Globo era Roberto Marinho, que na época recolhia migalhas que sobravam no banquete de Chateau.

Unindo essas forças, na retaguarda e inteligência do golpe contra Getúlio, os Estados Unidos. Os americanos não lhe perdoavam o preço que cobrou na negociação para a cessão de bases no Nordeste e envio da Força Expedicionária Brasileira à Itália: a construção da Usina Siderúrgica de Volta Redonda, da Fábrica Nacional de Motores e, principalmente, o planejamento da industrialização e desenvolvimento do Brasil por uma comissão econômica mista.

Para a implantação dos projetos, o governo americano deveria destinar US$500 milhões no âmbito do Plano Marshall e, contanto com isso, o Brasil fez enormes concessões durante todo o governo de Eurico Gaspar Dutra, abrindo excessivamente seu mercado, comprando petroleiros (do Plano Salte) que se partiam no mar e perdoando grandes dívidas inglesas.

Mas os americanos não mandaram um tostão.

Getúlio governou dois anos de cintos apertados, criou um adicional ao Imposto de Renda, fez caixa e, então, iniciou a execução das obras por conta própria com recursos do Estado – da construção da Hidrelétrica da Paulo Afonso à criação da Petrobras para explorar um petróleo que se afirmava inexistir.

Era homem honesto – sabe-se hoje com certeza – e patriota. O mar de lama foi invenção ou exagero retórico.

Isso tudo é história: apenas uma tragédia, que se repetiu como tragédia já por duas vezes.


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