Os muros da Cabuçu

Aos 60 anos, posso dizer que o que mais me ajudou a compreender o mundo foram as pichações que os irmãos Francisco dos Santos, comandados por Luiz Carlos, o mais velho, fizeram, nos anos 70, nos muros construídos para separar os prédios de um pequeno conjunto do IAPI, entre as ruas Cabuçu e Mar de Espanha, no Lins de Vasconcelos: “nós não somos vacas”, “pra quê o muro, ficaram ricos?”.

Olhando a foto de hoje, na capa de O Globo, onde militares norte-americanos estendem rolos e mais rolos de arame farpado contra a “manada” de latinos que vêm subindo para sua fronteira desde a miserável Honduras, não tenho nada a acrescentar ao que diziam os guris, meus vizinhos de então.

Não conseguem entender o óbvio, que a exclusão crescente, evidente, aumenta o número dos que estão fora e reduz o dos que estão dentro e, portanto, os torna mais passíveis da “invasão” que tanto temem.

Está na cara deles que o Rio das Pedras cresce mais que os condomínios da Barra da Tijuca, que Paraisópolis amplia-se mais velozmente que o Morumbi, e tal como hondurenhos, salvadorenhos e mexicanos, há um limite para contê-los com muros e farpas de metal.

Mas os homens do dinheiro tocam a flauta de um passado que já não pode existir para encantar a classe média, prometendo segurança com grades, com polícia e com balas para deter as multidões que não param de crescer.

Ficaram tão ricos, consideram a si mesmos como algo tão raro, valioso e superior  que pensam em si  como em algo a ser guardado em um cofre.

Eles não querem mais construir um mundo de paz para seus filhos, apenas uma jaula segura para protegê-los.


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