O roteiro para um filme de ficção que será um documentário

O dia foi salpicado de manifestações ridículas da direita – e não só a bolsonarista – contra o sucesso do documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa, indicado ao Oscar em sua categoria.

E a primeira razão para que sejam ridículas é obvia: provavelmente não o assistiram, por conta de seu ódio ideológico.

Mas a crítica que fazem é mais estranha ainda: a de que o filme, mesmo sendo todo guiado e fotografado com imagens reais, seria “ficção”.

Não admitem, claro, que a “ficção” foi o processo de deposição de uma presidente eleita sem que tenha cometido crime de responsabilidade.

Ou o que se passou no Brasil não foi um “House of Cards” ao reverso?

O candidato derrotado que não se conforma com o insucesso eleitoral, desde o primeiro minuto.

Um corrupto messiânico que reúne a maioria fisiológica do parlamento.

Um juiz tornado onipotente pela mídia ao ponto e fazer tremerem os joelhos da Suprema Corte.

Um extremista respaldado por militares surgindo como “azarão” e atropelando todas as estruturas políticas do país.

Um atentado, nunca explicado, que o atinge e o transforma em mártir.

E ele vai buscar o juiz divino para ser seu xerife.

E reúne um bando de fâmulos, ignorantes, estapafúrdios, sob a batuta de um charlatão que bafora cachimbos e empunha rifles na Virgínia.

Tudo com um ex-policial que coleta propinas e lava dinheiro para a primeira-dama.

Desculpem, mas o roteiro de um filme de ficção, se a talentosa Petra Costa – não, a Academia de Hollywood não escolheu o seu filme por “petismo”, mas por técnica e criatividade – quiser, o argumento está prontinho.

Pena que será outro documentário.