O governo subsidia o desemprego

Os jornais noticiam a insensível – e pior, inútil – Medida Provisória de Jair Bolsonaro que, a pretexto de garantir parte do salário – cria subsídios para que o trabalhador seja dispensado e sofra na pele todo o drama da crise do coronavírus.

Em lugar de manter vigentes as relações de emprego, desmonta-as.

Para manter os postos de trabalho, pode e deve assumir o pagamento de todo ou parte do salário, mas também exigir a sua manutenção, como acaba de fazer a Argentina.

Isso não vai evitar as demissões em massa, até porque as empresas sabem que não terão sequer a sombra de seu faturamento dentro de três meses.

Aqui, muitos empresários, especialmente os que não precisam de especialização da mão de obra vão, simplesmente, demitir logo, para não ficarem com obrigações dentro de três meses e, provavelmente, com baixas receitas.

Em matéria de ilegalidade, repete os desvios da primeira e anulada medida que suspendia contratos por quatro meses, sem salário. ao dispensar – agora para boa parte, mas não todos os trabalhadores – e, claro, gera insegurança jurídica e promete virar arrastada pendência judicial. E por uma bobagem, porque havia formas de fazê-lo sem isso e nenhum sindicato, em troca de uma estabilidade de seus trabalhadores, deixaria hoje de aceitar cortes suaves e seletivos por faixa de renda.

Mas os cortes têm pouco de suaves e, assim, vão na contramão da necessidade econômica de assegurar que não haja perda de renda a se somar aos já terríveis efeitos da crise.

Entramos, com toda a certeza num ciclo recessivo que irá, ao menos, até o final de 2020 e, portanto, deveríamos estar fazendo o contrário, injetando mais e não menos dinheiro do mercado, estimulando o consumo.

Além do mais, a vinculação da “redução da jornada” só pode ser coisa para “inglês ver”, porque não atende a nenhuma realidade: quem fazhomeoffice está, é obvio, sem controle de jornada, empregado de empresa fechada também está sem jornada e os que estão trabalhando, por serem essenciais, evidentemente não vão ter jornada reduzida.

Não temos economistas no governo, mas gente com mente contabilista, que elabora regras apenas para fechar contas e não de olho em seus efeitos econômico-social e muito menos ainda atenta à simplicidade que permita a todos entenderem e confiarem no que se faz.

O resultado, portanto, será uma onda de demissões “preventivas”, muitas desnecessárias até à sobrevivência das empresas.

Quando saírem os primeiros números, fique mais atento ao volume de “desalentados” – os que não têm e não procuram emprego. De que adiantaria procurar o que não há?

 

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