O governo não quer ler a Folha, mas quer escrever nela?

A Folha abre inexplicável espaço para que o carluxista secretário de Comunicação da Presidência ataque o jornal por ter criticado, num “editorial infame” o seu chefe Jair Bolsonaro, por não apenas sua censura a que a Folha seja lida nas repartições públicas – sim, é isso e não o preço de 60 ou 70 exemplares o grave nesta história – mas ter usado seu cargo para pressionar os anunciantes do jornal a excluí-lo de suas programações comerciais de publicidade.

Mas como, Brito, então você não é a favor de que todos possam falar o que quiserem?

Podem e devem, mas veículos de comunicação tem, por óbvio, a responsabilidade de que isso respeite os limites do decoro público e da coerência de ideias, sejam elas quais forem.

E o senhor Fábio Wajngarten viola a ambos, de maneira inaceitável.

Diz que o jornal defende “uma conspiração pela saída do presidente da República, num golpe contra as instituições” e a vontade dos brasileiros e, ainda mais grave, que “a Folha de S.Paulo se junta àqueles derrotados nas urnas em outubro passado, aos que tentaram matar o então candidato Jair Bolsonaro”.

Epa! Agora não é só não comprar o jornal, mas acusá-lo de estar junto com um louco feroz que esfaqueou o sr. Bolsonaro, como se criticá-lo fosse o mesmo que se meter numa tentativa de assassinato.

Est modus in rebus, há um limite nas coisas, dizia Horácio e a ideia segue valendo dois mil anos depois, do contrário estaríamos assumindo que se pode promover o nazismo, o autoritarismo, o racismo ou o extermínio porque isso seria “democrático”.

Além disso, há um ano, este mesmo senhor serviu-se da Folha, antes de ser chamado para dirigir a máquina de propaganda do governo federal, para dizer que “veículos de comunicaão fortes” vivem “de anúncios publicitários e/ou modelo de assinatura de conteúdo” e que são a garantia da “tão falada e desejada democracia”.

Portanto, na própria lógica do sr. Wajngarten, asfixiá-los, garroteando a um e a outro fator, significa pretender que não vivam e, por conseguinte, que não garantam a “tão falada e desejada democracia”.

Está nas redes, viralizado, o convite a retirar-se feito pela apresentadora Tonka Tomici, do Canal 13 de Santiago, ao advogado pinochetista Hermógenes Perez de Arce, quando este negou que tivesse havido tortura política sistemática na ditadura chilena.

O incidente, como mostrado há dias por aqui com a agressão física de Augusto Nunes, é um ensinamento de que chamar para espaços democráticos quem nega as práticas democráticas só é convite, apenas, para espetáculos antidemocráticos.

Se o senhor Wajngarten, como seu chefe, não quer ler e nem quer que leiam a Folha e, por um ato arbitrário e ilegal, determina isso ao Estado brasileiro, porque é que deve escrever na Folha, um jornal que, segundo ele mesmo, está junto do insano Adélio Bispo?

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