O escorpião não enganou ninguém

Laerte Coutinho, como sempre, consegue resumir em uma só imagem o engano – que tem lá os seus propósitos – de que Jair Bolsonaro pode ser manietado e reduzir-se a um governante palatável à democracia.

E isso ocorre porque de Bolsonaro interessa abolir os coices, as ameaças e a grosseria e, assim, aprofundar o que se tornou o “programa econômico” do ex-capitão, pilotado por um desaparecido e desmoralizado Paulo Guedes: demolição do Estado, dos direitos sociais e trabalhistas e venda indiscriminada de patrimônio público.

Há, na direita brasileira, este impasse. Não consegue construir uma alternativa política para que, com democracia formal, possa levar adiante seus desejos e planos de liquidação do país.

A última vez que o conseguiu, dependeu de um choque econômico (o Plano Real) e de uma figura ligada à esquerda, historicamente, Fernando Henrique Cardoso.

Como o sapo da fábula, pretenderam usar Jair Bolsonaro para alcançar seus objetivos, mas não contava – apesar de toda a vida pregressa e estupidez do candidato – que ele fosse capaz de transformá-la em alvo.

Bolsonaro, neste momento, pode ter dificuldade em manejar sua cauda militar, mas o ferrão e a peçonha – que ele nunca escondeu – continuam prontos a inocular doses de autoritarismo letais à democracia.

Não se trata de “inventar” razões para impedir Jair Bolsonaro, o que é absolutamente imprescindível, mas de fazer funcionarem os mecanismos da democracia.

Está mais que claro que ele é, em si, uma ameaça que deveria apavorar a todos, especialmente aos militares: põe em risco a unidade nacional, que se expressa em ódio entre parcelas da população.

Bolsonaro é o que, sucessivas vezes, afirmou ser: um chefe de clã do submundo, um defensor da ditadura, um apologista da tortura, um intratável na política, uma nulidade na visão de país.

Em sua defesa, diga-se que não enganou ninguém politicamente esclarecido.

O sapo deixou-o subir em suas costas por ódio à esquerda e sem ela não deixará de ser ferroado por ele.

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