O coronavirus é um alerta contra o abandono da medicina social

O constante elogio da medicina privada no Brasil – expresso na deformação que alcançamos com os “planos de saúde” sendo o esteio de dezenas de milhões de pessoas, sustentados pela renúncia fiscal do Estado – vai enfrentar uma dura prova caso o primeiro episódio de contaminação por coronavírus registrado no país – tomara que não – se expanda para uma situação de surto, como está acontecendo em vários países, agora.

Medicina social não é uma opção ideológica, é uma imposição sanitária, porque a doença, quando contagiosa, não é privada, é pública.

Vírus e bactérias não se importam se o seu hospedeiro tem ou não plano. Eles, ao contrário de muitos de nós, nos igualam na condição humana.

Fez-se muito para destruir nossa atenção primária em saúde e nada se fez de pior senão a campanha contínua de desmoralização do SUS.

Não só desqualificando nossa primeira linha de combate à doença – bom mesmo é a “tropa de elite” dos hospitais-hotéis – como também se desviaram para as “especialidades” lucrativas gerações de médicos que, até os anos 70/80, seguiam a grande tradição e capacidade brasileira de enfrentar, desde Carlos Chagas e Oswaldo Cruz, as moléstias de natureza infecto parasitárias.

Cruz, aliás, só erradicou a febre amarela do Rio e Janeiro porque os governantes apoiaram suas medidas “chinesas” e enfrentaram até uma tentativa de golpe junto com a chamada “Revolta da Vacina”.

Como combater epidemias com uma saúde basicamente privada?

Tratar dos infectados ricos e deixar os infectados pobres amontoarem-se em galpões? Seguir a ideia exposta pelo presidente da república de que “esse pessoal com HIV dá uma despesa enorme”?

Não há motivos para crer, até agora, que o coronavírus vá ser uma epidemia por aqui.

Mas não ter motivos assim, em cuidados com doenças deste tipo e com este potencial ofensivo, em medicina, não é motivo para não agir. As medidas de bloqueio, facilitadas por que o vetores são humanos e as portas de entrada aeroportos e portos, tem de ser acionadas já.

A inteligência epidemiológica do país precisa ser convocada para estabelecer protocolos, orientações, diretrizes que nos deixem prontos a agir de imediato, com plano e contingência que contemplem todas as possibilidades, mesmo as mais remotas, de chegada da doença.

Economia e medicina não são índices e exames laboratoriais, são gente circulando e convivendo.

Não são, portanto, assuntos privados, que só cada indivíduo digam respeito.

 

 

 

 

 

 

 

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