O carnê do medo

Ingressamos no 11° mês – quase um ano – do período Bolsonaro.

Fosse apenas um sacrifício temporário, poderíamos estar fazendo como fazíamos, os “remediados”, com as prestações: já foram 11, só faltam 37, com as folhas na menos no carnê servindo de consolo ao tanto que ainda faltava pagar.

Mas não é assim e assusta mais o que não sabemos ainda ter de pagar do que aquilo que sabemos que a contabilidade democrática nos obrigaria a honrar.

Sim, porque o governo Bolsonaro é ruim de qualquer ângulo que se olhe: a economia estagnada, os direitos coletivos e individuais violentados, a dilapidação de nosso patrimônio, nossas riquezas naturais e do meio-ambiente, o acanalhamento das instituições, a brutalização do convívio social.

Mas o mais assustador é a impressão generalizada de que tudo o que é ruim possa piorar, com uma aventura autoritária da qual não faltam nuvens no horizonte para avisar-nos.

Sim, esta é a grande “obra” do governo Bolsonaro: o medo, o temor, a insegurança sobre o futuro da democracia, ainda que formal, que era cada vez menos conquista, com o passar dos anos, e cada vez mais uma condição natural.

Não é o que se ouve, como rojões malditos, nos mais recentes rugidos do poder? “AI-5”, “democracia responsável”, garantia da lei e da ordem, licença para matar?

Não é o que se percebe na substituição da organização política via partidos por uma falange miliciana, que não disfarça nas balas, no “trezoitão” e nos gritos histéricos?

Assusta, sobretudo, a fraca reação do organismo nacional a esta contaminação pelo vírus do ódio que assistimos e que nos deixa com a aterrorizante impressão de que o poder político é, agora, exercido pelo “Partido da Polícia”, que reúne juízes perseguidores, procuradores onipotentes e policiais intocáveis.

Como polícia e milícia sempre dividiram as áreas obscuras, é impossível saber até onde vão as cumplicidades, talvez tão longe que cheguem à Barra da Tijuca.

Olha-se o carnê do sacrifício e estão lá as 37 páginas. Mas o credor é fero e temos razão para crer que, alguma hora, aumentem-se as prestações e subam os valores a ser pagos.

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