Não são as fotos de Salgado que não querem. São os índios

A tentativa do governo brasileiro, através da Funai, de “devolver” ao fotógrafo Sebastião Salgado as 15 lindas fotografias que este doou ao (em tese) órgão de proteção e assistência aos povos indígenas brasileiros é um dos melhores retratos da estupidez que tomou conta da cúpula deste país.

Retirar das paredes da Funai as imagens registradas por Salgado, um dos mais importantes fotógrafos do mundo e um olhar voltado para a Amazônia há décadas – são dele as impressionantes fotos do formigueiro humano do garimpo de Serra Pelada – não é apenas um espetáculo de fundamentalismo político, pelo fato de ele estar em oposição à política (não) indigenista de nosso país.

É o desprezo a que foram lançados os remanescentes dos donos originais desta terra, que foi muito claramente exposto pela fala do finado ministro Abraham Weintraub ao dizer, na famigerada reunião ministerial de 22 de abril que odiava o termo “povos indígenas“.

Curiosamente, para fazer demagogia, o ex-ministro referiu-se à perseguição do povo judeu pelos nazistas, que guarda suas semelhanças com a perseguição aos indígenas brasileiros, pois parece com o mesmo processo de retirar seus bens, materiais e culturais, e confiná-los em guetos, submetidos à miséria e ao morticínio.

Aliás, o fato de que a Funai foi colocada sob a chefia de um delegado da PF, Marcelo Xavier, não pode deixar de remeter a uma paráfrase da República Velha: será questão indígena um caso de polícia?

Sebastião Salgado, porém, mostra que segue havendo um Brasil onde há outro lado, o mesmo lado que levou o Marechal Cândido Rondon a entrar, há cinco anos, no livro dos Heróis da Pátria.

Podia ter dado de ombros e recebido as fotos, para vender a imagem dos índios como os grileiros fazem às suas terras. Mas não aceitou-as de volta – e o seu já alto valor se multiplicaria por terem sido “banidas” pelo bolsonarismo.

“Não pertencem a mim nem à Funai”, disse ele, “pertencem ao Brasil”.

Ainda que seja um Brasil onde, durante esta quadra infeliz, onde, no pais que já foi só seu, os povo indígenas não mereçam ser vistos nem mesmo nas paredes da Funai.

 

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