Não é a Folha gostar de apanhar que me fará apoiar espancador de imprensa

Apesar de não me mover qualquer solidariedade política ao papel que a Folha desempenhou de ajudar a cevar Jair Bolsonaro, tratando como um candidato diante do qual se deveria portar com neutralidade, enquanto a seus adversários nunca se cansou de pedir sessões de autoflagelação públicas, codinome “autocrítica”, creio que é grave para todos a nova ofensiva do presidente contra o jornal, ameaçando ir além de cancelar as assinaturas do jornal paulista pela administração pública. Isso, embora revelador da estupidez do “não li e não gostei”, tem pouco impacto.

Agora, ameaçar os anunciantes do jornal, ao dizer que boicotará seus produtos e – óbvio – estimulando seus subordinados a fazerem o mesmo – a atitude de Bolsonaro vai além de atacar um jornal que, sob muitos aspectos, assume o papel que os antigos chamavam de “mulher de malandro”, destinado a quem continuava, como a Folha continua, a apoiar as políticas deste governo nefasto.

Bolsonaro parte para o caminho da chantagem expressa sobre empresas e tenho poucas dúvidas de que elas passarão a adotar os “conselhos” presidenciais em outros campos, em especial com seus trabalhadores.

Quem quiser que diga o “bem-feito” que o jornal mereceria por, ainda outro dia, entoar loas a Paulo Guedes, a quem, dias depois, pareceria normal o AI-5.

Por isso e por muito mais, por agredir que a respeitou com várias passagens de jornalismo de esgoto, como a ficha falsa do Dops sobre Dilma Rousseff. Ou por chamar de “ditabranda” a ditadura que apoiou.

Porque as ditaduras acabam sempre em conflito com a imprensa, mesmo com a que lhe foi, um dia, cúmplice ou amiga.

Eu prefiro que os próprios leitores puxem o rabo preso do jornal com o mercado financeiro, expondo a vergonha de apoiar seu próprio algoz.

Apenas porque este algoz é mais que algoz da Folha, é algoz das liberdades democráticas.

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