Na Marina da Glória pode o que em Paraisópolis não pode

Enquanto nos jornais e sites jorram comentários sobre a barbaridade do barulho produzido nos bailes funk e se usa isso como “justificativa” para ações policiais brutais, que resultaram na morte de nove pessoas, quase ninguém viu a reportagem sobre algo igual e até maior em matéria de perturbação do sossego público que ocorreu, na mesma madrugada, no Rio de Janeiro.

A chiquérrima Marina da Glória, com ingressos entre R$ 450 e R$ 900, viveu uma festa da pesada e com dois DJ estrangeiros, a Chris Lake & Fisher presents: NAFF, onde Naff é a abreviatura de “Not Another Fucking Festival”.

Gosto não se discute, mas o fato é que o volume do “batidão” techno era tão alto que, até bem depois de raiar o dia, fazia tremer portas e janelas do chique bairro da Urca, a uns quatro quilômetros, em linha reta, de distância.

— Ninguém dormiu nada essa noite porque terminou às 6h20 da manhã. As janelas e porta vibravam, pareciam que ia cair, disse um morador ao jornal Extra.

Sim, também chamaram a polícia. Mas ela não chegou com bombas de gás, spray de pimenta e balas de borracha. Levou, como devia levar, bons modos e, como alegou não ter medidores de volume sonoro, foi embora sem nenhuma providência senão um pedido para abaixarem o som, que de nada serviu.

Aos apologistas da “lei e da ordem”, a pergunta inevitável: qual a diferença entre os ricos da Marina e os pobres de Paraisópolis?

Nenhuma, não é, senão o dinheiro, as roupas, a cor da pele, os carrões e o direito de serem tratados como seres humanos.

Estadão e Globo, apesar do registro das mortes em São Paulo, abrem fotos enormes de passeios ciclísticos. Nada contra as bicicletas, mas em que avaliação editorial o trauma, o choque e a dor de uma imensa comunidade, com nove mortes, podem ser menos notícia?

É só a estética?

Será que nós, jornalistas, já não temos nem mesmo sensibilidade para perceber a discriminação sequer pelos ouvidos?

Aceitamos e toleramos como justificativa para espancar e matar pobres aquilo que, quando fazem o mesmo os “filhinhos de papai” pode ser tratado como normal e respeitável?

Quem quiser ser cúmplice disto, então não reclame quando se disser que aceitam e apoiam o apartheid.

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