Moro segue o ocaso dos generais

Quando se iniciou o governo, 11 em cada dez analistas políticos previam que, por quantidade e postos, os militares teriam um papel reitor na gestão de Jair Bolsonaro.

Oito meses bastaram para ver que, de fato, se deu o contrário: Bolsonaro transformou os generais em solícitos ajudantes-de-ordens e espirrou para fora do governo o general Santos Cruz, o único que quis resistir aos ensandecidos métodos do ex-capitão.

Dois outros – o ministro da Defesa e o comandante do Exército, Edson Pujol – tentam manter as Forças Armadas o tanto quanto possível distantes das políticas (se é que se pode chamá-las assim) do governo, embora seja difícil dissociarem-se do crescente rechaço ao ex-capitão. O próprio Bolsonaro cuida de dificultá-lo, fazendo questão de manter uma intensa agenda de ida aos quartéis e escolas militares, mantendo a sua “ligação direta” com tropa e oficialidade.

Mas não foi a militar a única corporação que tem hoje lágrimas a verter por sua associação à aventura bolsonarista, decisiva para dar a vitória eleitoral ao desastroso atual chefe de Governo.

A casta judicial (e parajudicial) abandonou, ao longo dos anos, o seu distanciamento prudente da política e atirou-se no projeto semelhante à tentação que tantas vezes caracterizou os fardados, mas não aos togados: tutelar o governo da República.

Construiu, com mais modos e igual vezo autoritário, o seu próprio Bolsonaro: Sergio Moro e imaginou que ele seria, com plenos poderes, seu interventor na República.

Não é preciso descrever o desastre em que isso resultou.

O Ministério Público, antes seu ponta de lança, está desbaratado, não só pelas imundícies reveladas pelos diálogos do Telegram como pela sucessão de Raquel Dodge, na qual não se pode falar sequer em disputa dentro da corporação, mas em prostração diante do poder absoluto de escolha do Presidente.

Afinal, a sabujice ao poder é o único critério relevante para a escolha do Procurador Geral da República.

A Polícia Federal, seu espalhafatoso braço operacional, idem. Ainda tenta fingir que resiste, mas está claro que Moro, fraco, não consegue senão maquiar e reduzir a velocidade da fúria com que Jair Bolsonaro deseja ter o completo controle da instituição.

Não se veja, porém, nestes fatos uma inteligência estratégica de Jair Bolsonaro. É, antes, seu espírito temerário que se impõe sobre a fragilidade intelectual e de princípios de ambas as corporações que, como ocorre tanto com a elite brasileira, desligaram-se de suas naturezas de instituições de uma Nação e passaram a viver um minúsculo jogo de poder e de posições hierárquicas.

Ajudam, prisioneiros de sua cumplicidade, o que vem a ser o projeto bolsonarista: a dissolução do Brasil e sua completa recolonização.

Afinal, ele próprio declarou na capital, Washington:

—O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz”

Tem razões para estar feliz.

 

 

 

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