Moro é tosco e deu um tiro no pé

Sérgio Moro é um homem primário, que fundamenta sua estratégia essencialmente na posição de “autoridade” que nao pode ser contestada, mas apenas obedecida.

Sua atitude, ontem, de sair disparando telefonemas aos supostos “hackeados” para dizer que estavam na “lista de Araraquara” arranjou o contrário do que pretendia com as promessas de destruir as provas da invasão.

O primeiro nó: há provas da invasão, diálogos – comprometedores ou não – subtraídos de perto de mil telefones de autoridades do Executivo, parlamentares, juízes e jornalistas.

Os diálogos, por terem sido supostamente hackeados, não podem ser reproduzidos (a não ser que, se existem, sejam vazados). Mas são prova – e legalmente obtidas – do crime de invasão e, como tal, devem ser preservados, ainda que em sigilo.

Sigilo que não valeu para uma das supostas vítimas e para um dos ministros de Jair Bolsonaro: ele próprio, Sérgio Moro.

E que provoca reações cada vez mais violentas, como a do presidente da OAB, ao dizer que Moro “usa o cargo, aniquila a independência da Polícia Federal e ainda banca o chefe de quadrilha ao dizer que sabe das conversas de autoridades que não são investigadas”.

Moro criou uma dúvida contra si próprio: conhece apenas a lista dos hackeados ou o teor do hackeamento?

Isto, se é tudo verdade na operação da PF. Mas se ela embicar para outra direção e não a que está apontando?

Arvorando-se em comandante da operação policial, Moro deu como concluída uma investigação que, aparentemente, está inconclusa.

Falta estabelecer um rol imenso de coisas: se os hackers de Araraquara são golpistas rastaqueras, clonadores de cartões de crédito e estelionatários de pequenos golpes, o que pretendiam? Tinham estrutura para “pilotar” uma invasão em massa, de perto de mil telefones? Era chantagem o que pretendiam? A quem e como?

Recorde-se que não há, até agora, nenhum indício de que o tenham feito e menos ainda quem denuncie ter sito vitima de tentativa de extorsão.

Hoje, na Veja, Gleen Greenwald mostra uma das comunicações que teve com sua fonte – e que não diz, naturalmente, se é o hacker de Araraquara – onde comenta a notícia de uma suposta invasão ao celular de Moro, noticiada no dia 5 de junho. A fonte não apenas nega que tenha sido o autor como diz que não é amadora ao ponto de se expor fazendo isso.

E pergunta é óbvia: e seria ao ponto de fazer isso não com uma pessoa, mas com mil? Quem hackeia um, dois, dez telefones pode ter a esperança de não ser identificado, não quem hackeia mil aparelhos de quase todas as autoridades dos três poderes da República.

Se aparecer algo que mostre que o grupo de Araraquara não é o autor do vazamento de que se valeu o Intercept, com que cara ficará Moro?

 

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