Generais, não ajudem a tomarem a Amazônia dos nossos corações e mentes

O emprego das Forças Armadas no combate aos incêndios da floresta, especialmente na Amazônia, é absolutamente correto.

O que são falsas são as razões de “defesa da soberania” invocadas por Bolsonaro e, com imensa estultice, por diversos generais.

Não há ataque militar à Amazônia e o máximo que se tem de delírios deste tipo e o ongueiro-motoqueiro que o ex-capitão inventou ontem para culpar por queimadas criminosas.

O ataque que há e sempre houve à Amazônia é político, econômico e, por eles, ideológico.

Sempre esteve na mira dos interesses do capital, desde a Fordlândia, em 1927, passando pelo manganês da Bethlehem Steel Corporation, na Serra do Navio, no Amapá e, mais recentemente, quando Jair Bolsonaro manifestou seu interesse em mandar o filho trazer mineradoras norte-americanas para explorar terras indígenas.

Desde a derrota de franceses e norte-americanos no Sudeste Asiático, nos anos 60/70, nenhum estrategista sério tem qualquer ilusão sobre ocupar e controlar grandes áreas de floresta tropical densa, que é coisa muito diferente de despachar helicópteros e rolar tanques pelo deserto descampado.

Onde os militares deveriam estar é mesmo no combate ao desmate e ao garimpo criminosos, bem como na vigilância de fronteiras, porque isso lhes daria experiência e preparo para as missões de reconhecimento e intervenção sobre irregulares que, estes sim, poderiam ser ameaça real.

Com isso e com as ações de suporte às populações isoladas, na tradição magnífica que herdamos do Marechal Cândido Rondon, é que uma força armada dá sentimento nacional aos caboclos e índios amazônicos, que é a única forma de ter presença naquele imenso território.

Achar que a ocupação estrangeira da Amazônia se daria por tropas é, perdão, uma tolice completa.

Primeiro: os 5,5 milhões de quilômetros quadrados são inocupáveis. Se França, Alemanha e Reino Unido juntassem todas os seus exércitos, sem deixar um soldadinho em casa, ainda assim seus 300 mil homens não dariam senão um para cada 20 km quadrados de mata, o que impediria qualquer ação de concentração de tropas que desse eficiência à sua ação.

Atpé se fosse o imenso exército da China, daria um chinezinho para “ocupar” 140 campos de futebol.

Segundo, pela mesma razão que as queimadas estão escandalizando o mundo, é politicamente inviável repetir as fórmulas do Vietnã, com jatos e helicópteros desovando foguetes, bombas incendiárias e agentes químicos sobre a Floresta.

Portanto, é patética a sugestão feita ontem pelo general Eduardo Villas Boas de que o pronunciamento de do presidente francês, Emmanoel Macron incluia “objetivamente, ameaças de emprego do poder militar” contra o Brasil.

Faz muito tempo que a guerra não é só de armas, mas é híbrida e faz da opinião pública o seu principal campo de batalha.

Sabe como nos podem tomar a Amazônia, general? É tomando-a, já que falamos no Vietnã, de nossos corações e mentes, como quem quer algo somente para destruir, para queimar, para devastar.

E pior ainda, se prestando ao papel de serem uma “desculpa” de Bolsonaro diante da encrenca gratuita em que se meteu.

 

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