EUA e Brasil: mórbidas semelhanças

Nem será preciso que o tempo passe para que historiadores, com suas teses e remissões, verifiquem que a praga do século 21 que se ombreará ao que foi a gripe espanhola no início do 20, é um vírus com características políticas.

Não, não é o “vírus comunista” que a estultice mundial usa por conta de sua aparição original na China – a “espanhola” é gripe que tem sua origem discutida até hoje, embora seja certo que não foi a Espanha o seu berço.

É porque dois países, ambos com governos negacionistas e estúpidos, tornaram-se o símbolo desta praga e ainda vão tornar-se ainda mais, à medida em que se sucedam os dias.

Os números são acachapantes: embora somem menos de 7% da população mundial, Estados Unidos e Brasil respondem por nada menos que 39% dos casos registrados de infecção pelo novo coronavírus: 4,7 milhões, por enquanto. Algo semelhante acontece com o número de mortes: com 134 mil por lá e 67 mil aqui, as 201 mil mortes nos dois países são 37% de todos os óbitos pela doença no planeta.

Mais ainda: como ambos são líderes em novos casos e novas mortes, estas já incríveis proporções vão se tornar mais agudas: dos novos registros de Covid-19 ontem, 50 % (54 mil nos EUA e 48,5 mil aqui) ficaram com a dupla e quase o mesmo (42%) em relação a novas mortes em 24 horas.

Em resumo: em nenhum destes indicadores os registros, comparados à população, deixam de ser ao menos 5 vezes maiores que a média do planeta.

A Europa – 11% da população mundial – onde vimos situações dramáticas na Espanha, no Reino Unido, na Itália e na França, os percentuais são muito menos elevados: 2,5 milhões de pessoas contraíram a doença, ou 21% do total de casos e 35% das mortes, índice que está baixando a cada dia, pois na medida do último dia fica nos 10%.

Temos mais casos por milhão de habitantes que qualquer daquele países e, como nossos números são crescente, logo os superaremos em óbitos proporcionais.

Isto não é casual. Salvo algumas exceções pouco importantes, nossos dois países tem governos que trabalham para negar a gravidade da situação e estimulam e promovem, por razões políticas e econômicas, o mau comportamento da sociedade em matéria de prevenção e cuidados.

Portanto, se querem procurar razões epidemiológicas, melhor esquecer aquela conversa sobre “o clima quente inibe o vírus” que se desmoraliza no nosso país tropical, apesar da climatologia estranha do general da Saúde e no verão norte-americano.

A estupidez no poder, essa sim, é o mais cruel vetor de transmissão.