Economia: o silêncio dos cúmplices

O caro leitor e a cara leitora, talvez enfadados com a super-atenção que este blog tem dado aos movimentos do mercado financeiro, devem conceder-me a tolerância de verificar quantos dos comentaristas de economia estão dando de importância à crise que se abate cobre o mundo – e sobre o mundo onipresente dos negócios que governa a própria redonda Terra.

Há mais de um mês falam, no máximo, de “preocupação” com o surto – que só não é pandemia porque até a OMS está preocupada em não jogar lenha na fogueira com o uso deste nome – de coronavírus.

Ia “passar” em uma semana, depois duas, quem sabe até o fim do mês ou, talvez, com o trimestre. Daí as coisas se recuperariam, as compras e a produção atrasadas se poriam em dia e tudo seria apenas um insignificante acidente de percurso.

Ontem, com o circo desabando, Miriam Leitão falava de “um susto” e que “ainda não está claro o quanto o mundo será atingido”.

Só o Valor dimensiona o desastre, trazendo como manchete do site Ibovespa cai 7% e tem pior sessão desde o “Joesley Day”, exatamente o que ontem se dizia aqui.

Foi, você se recorda, o sepultamento das ilusões de uma recuperação cantada em prosa e verso com a equipe econômica dos sonhos”, com Meirelles e Companhia.

Amanhã você lerá que mais de R$ 300 bilhões de reais foram vaporizados com a queda da Bolsa. Não é verdade. Como acontece com os prestidigitadores, “some” aqui e reaparece ali, em outras mãos, logo depois.

O investidor de classe média, empurrado pelas ilusões do “Ibovespa a 200 mil pontos”, pelas Betinas milionárias e pelo “agora a coisa vai”, saiu das aplicações de renda fixa e foi para o cassino.

O cidadão que botou os R$ 30 mil que suou para juntar e que não lhe davam na poupança nem R$ 80 por mês, muito menos que a inflação, foi parar nas XP da vida, se sentindo o Luciano Huck e, em meio ao naufrágio descobre que “nossos botes salva-vidas estão com excesso de demanda, tente mais tarde”.

Da semana passada para cá, se aplicou num fundo lastreado no Ibovespa, perdeu 10%, ou R$ 3 mil, na quinta, sexta e hoje.

O pífio crescimento de 2%, alegria de pobre, está irremediavelmente comprometido, porque a aposta no capital estrangeiro se desmancha no fato de que, no furdunço mundial, não há dinheiro que venha para cá e, do que está aqui, ninguém é besta de meter em investimento produtivo.

No mínimo, o primeiro semestre do ano está perdido, porque os efeitos sobre o comércio mundial ainda estão por ser ser sentidos e a retração se dá sobre negócios futuros não sobre aquilo que já estava contratado, muitas vezes em contratos de mercado futuro.

Nada, neste raciocínio, como você percebeu, apela para coisas que poderiam ser chamadas de “terrorismo”, como imaginar uma epidemia no Brasil ou mesmo nos Estados Unidos. Não tenho talento para “cinema-catástrofe”.

Só um fator interno ela leva em conta e este é meio óbvio: não temos um governo capaz de prover segurança política, ao contrário. Temos um disseminador de crises e crises contínuas.

Conta, é verdade, com o handicap de uma tolerância da mídia, mercadista que só.

Ainda assim, consegue dissolvê-lo e vai para o isolamento.

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