Desemprego não é “indicador econômico”, é genocídio geracional

É impressionante a frieza com que os sucessivos recordes na taxa de emprego no Brasil são recebidos pelos analistas econômicos brasileiros.

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Eu diria, até, que fazem um muxoxo, inconformados com o fato de, apesar de uma gravíssima crise mundial, estarmos não apenas mantendo os níveis de ocupação como aumentando o número de postos de trabalho.

O dado divulgado semana passada pelo IBGE, registrando o menor desemprego em outubro de toda série histórica, 5,2%, foi tratado assim.

Talvez ele fique mais evidente se traduzido em seres humanos.

Nas seis regiões metropolitanas pesquisadas, 27 mil pessoas começaram a procurar emprego e conseguiram um.

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Além disso, outras  58 mil pessoas que estavam desempregadas  voltaram a trabalhar em outubro.

Um estádio de futebol abarrotado de gente.

E  trabalhar com direitos: o número de trabalhadores com carteira assinada cresceu 3,6%, em um ano.

Publico, por isso, um artigo do claríssimo economista Paulo Nogueira Batista Jr, que ajuda a recordar em que quadro da economia global acontece esta proeza brasileira de ter chegado a níveis de emprego semelhantes aos dos países desenvolvidos.

E do mal que vivíamos há uma década, quando estes que fazem cara feia para os rumos da economia brasileira entoavam loas aos homens que faliram o Brasil.

Geração perdida 

Paulo Nogueira Batista Jr

O desemprego é um dos mais problemas mais graves, senão o mais grave, em muitas partes do mundo. Em alguns países, alcança proporções de verdadeira catástrofe. Não se trata, por certo, de um problema generalizado. Os mercados de trabalho continuam a ser uma das partes menos “globalizadas” da economia mundial, como fica evidente pela grande dispersão das taxas de desemprego. Entre os Brics, por exemplo, a taxa de desemprego é de 4% na China e pouco mais de 5% no Brasil, mas alcança nada menos do que 26% na África do Sul. Mesmo dentro de uma região fortemente integrada como a área do euro, as diferenças são enormes: a taxa de desemprego varia entre um mínimo de 5% na Alemanha e 27% na Espanha e na Grécia.

Esses números tendem, em geral, a subestimar a gravidade do problema, pois correspondem a taxas oficiais de desemprego, que medem o chamado desemprego aberto e refletem parte do sofrimento causado pela perda de empregos ou oportunidades de trabalho.

Isso porque o desemprego aberto, da forma como costuma ser definido, inclui apenas os desempregados que fizeram busca ativa por trabalho num período relativamente curto de referência (geralmente quatro semanas). As taxas oficiais não captam, por exemplo, o chamado desemprego por desalento (pessoas desencorajadas pela situação do mercado de trabalho e que não procuraram emprego no período de referência). Também não captam o subemprego por trabalho precário ou por trabalho involuntário em tempo parcial.

Assim, por exemplo, quando um trabalhador desempregado perde as esperanças e desiste de procurar trabalho no último mês, ele é não é mais considerado parte da população economicamente ativa. Nesse caso, paradoxalmente, a taxa oficial diminui.

Quando se define o desemprego de forma mais ampla, incluindo essas outras formas de subutilização da força de trabalho, a taxa de desemprego tende a ser muito mais alta. Nos EUA, por exemplo, a taxa de desemprego no conceito mais amplo é quase o dobro da taxa oficial (13,8% contra 7,3%).

Mas é na periferia da área do euro que o quadro se apresenta como desastroso. Em países como Espanha, Grécia, Portugal e Itália, o desemprego de longo prazo (de duração superior a um ano) chegou a níveis alarmantes. E a taxa de desemprego entre os jovens (até 25 anos) alcança nada menos do que 57% na Grécia e na Espanha, 40% na Itália e 37% em Portugal.

Taxas elevadas e persistentes de desemprego de longo prazo e entre os jovens minam a capacidade de crescimento das economias no longo prazo. Muitos jovens nunca têm chance de qualificar-se no mercado de trabalho; os desempregados por longo período perdem as qualificações que têm e podem se tornar inempregáveis.

Nesses países da área do euro não é apenas uma década, mas uma geração inteira que está sendo perdida.

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