Delegada no COAF é para descobrir quem vazou “Caso Queiroz”?

Quem acha que nada acontece por acaso tem um bom caso para apurar.

Haverá alguma ligação entre a nomeação da delegada da Polícia Federal Érica Marena e a nova crise criada ontem pelo Sr. Jair Bolsonaro, “denunciando” uma jornalista do Estadão por receber os dados que vazaram do Conselho de Controle de Atividades Financeiras – o Coaf sobre as movimentações suspeitíssimas de Fabrício Queiroz?

Vai começar uma caça ao “vazador” que deixou que se soubesse dos milhões operados na conta de um “simples motorista” que, entre outras coisas, depositou vários cheques na conta da mulher do ex-capitão?

A questão ética de jornalistas publicarem informações que deveriam ser sigilosas mas que vazaram está resolvida há 48 anos, desde que a Suprema Corte dos EUA validou a ação do The New York Times e do Washington Post de publicarem os famosos “Papéis do Pentágono”.

Nem é preciso dizer, claro, que o ex-capitão, seu ministro Sérgio Moro e seus seguidores jamais se incomodaram com vazamentos quando os acusados eram outros…

Na questão política, Bolsonaro apenas “esquentou” e chamou a si, de novo, um assunto que vinha em banho-maria e que só lhe traz desgastes, justo no momento em que deveria –  querendo mesmo dar velocidade à tramitação da PEC da Previdência, largamente apoiada pelos “jornalões” – buscar sossego com a grande mídia.

Há dois aspectos que, ao contrário destes, explicam a “planejada insensatez” do Presidente.

Um, claro, é sua incapacidade de descolar-se das sandices e politicagens dos filhos, com quem, há poucos dias, proclamou sua simbiose absoluta.

O outro é o que cada vez mais gente percebe: açular sua tropa de fanáticos, no submundo das redes sociais.

A reação do Estadão à manipulação e montagens da “denúncia” reproduzida por Bolsonaro de um site de extrema-direita, para quem não tem acesso ao jornal, reproduzo abaixo:

Bolsonaro usa declaração falsa para atacar imprensa

Presidente usa texto de site que atribuiu falsamente frase a repórter do ‘Estado’ para criticar cobertura sobre o filho e senador Flávio Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro atacou a imprensa valendo-se de informações falsas divulgadas ontem por um site que reúne colunistas conservadores e favoráveis ao governo. No Twitter, Bolsonaro endossou tese levantada pelo site Terça Livre, que falsamente atribuiu a uma jornalista do Estado a declaração de que teria “intenção” de “arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”.

A suposta declaração, que aparece entre aspas no título do texto do Terça Livre, foi atribuída pelo site à repórter Constança Rezende. A frase teria sido dita, segundo “denúncia” de um jornalista francês citado pelo Terça Livre, em uma conversa gravada em que a repórter fala da cobertura jornalística das movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz, ex-motorista do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).

A gravação do diálogo, porém, mostra que Constança em nenhum momento fala em “intenção” de arruinar o governo ou o presidente. A conversa, em inglês, tem frases truncadas e com pausas. Só trechos selecionados foram divulgados. Em um deles, a repórter avalia que “o caso pode comprometer” e “está arruinando Bolsonaro”, mas não relaciona seu trabalho a nenhuma intenção nesse sentido.

Allan Santos, editor do Terça Livre, no entanto, expôs a conversa como evidência de suposta irregularidade. “Bomba!!!!! Jornalista do Estadão confessa: “a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”. A frase jamais foi dita.

Estimulados pelas informações, grupos governistas promoveram no Twitter uma série de postagens nas quais acusaram o Estado de “mentir” na cobertura do caso Flávio Bolsonaro. Às 20h51min, o próprio presidente publicou o seguinte texto no Twitter: “Constança Rezende, do ‘O Estado de SP’ diz querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro e buscar o Impeachment do Presidente Jair Bolsonaro. Ela é filha de Chico Otavio, profissional do O Globo. Querem derrubar o Governo, com chantagens, desinformações e vazamentos.”

A postagem de Bolsonaro foi ilustrada com um vídeo do Terça Livre, que expôs a foto de Constança Rezende e o áudio de um trecho da conversa gravada. A gravação foi divulgada primeiro por um site francês, em um texto de Jawad Rhalib, que se apresenta como jornalista. Rhalib também expõe a tese de que a gravação seria prova de que a imprensa distorce fatos para comprometer Bolsonaro.

Constança não deu entrevista ao jornalista francês nem dialogou com ele. Suas frases foram retiradas de uma conversa que ela teve em 23 de janeiro com uma pessoa que se apresentou como Alex MacAllister, suposto estudante interessado em fazer um estudo comparativo entre Donald Trump e Jair Bolsonaro.

O Terça Livre, com base na “denúncia” de Jawad Rhalib, também falsamente atribuiu à repórter a publicação da primeira reportagem sobre as investigações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) a respeito da movimentação de R$ 1,2 milhão nas contas de Queiroz. O autor da primeira reportagem foi Fabio Serapião, também do Estado.

“Desde que Constança iniciou a temporada de caça aos Bolsonaro no Estadão, emissoras como a Rede Globo e jornais como Folha de São Paulo seguiram o mesmo caminho”, diz o texto do site. “Uma enxurrada de acusações em horário nobre, capas de revistas e nas primeiras páginas de jornais colocaram a integridade moral do filho do presidente em xeque.”

As informações publicadas pelo jornal se baseiam em fatos e documentos oficiais. O Ministério Público apura se Fabrício Queiroz recebeu indevidamente depósitos de funcionários da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).

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