Decisão de Noronha dá a Queiroz chance de “DR” com a mulher

Juridicamente, não é absurda a decisão do presidente do STJ, João Otávio de Noronha, de transformar em domiciliar a prisão de Fabrício Queiroz, desde que fosse, como foi, mantida a sua incomunicabilidade com outros envolvidos com o caso das “rachadinhas” no gabinete do “Filho 01”, Flávio Bolsonaro.

Queiroz foi interrogado sem circunstâncias que lhe permitissem combinar versões, pressionar testemunhas e tem (ou teve) um câncer de intestino que justificava a precaução de ficar fora do ambiente prisional, ainda mais em tempos de pandemia. Sem poder sair de casa e sem visitas senão a de advogados e médicos, além das filhas, não é absurda a concessão do benefício.

Aliás, o mesmo que a idolatrada Lava Jato não dava a ninguém, senão quando prometesse delatar.

Mas a concessão da mesma regalia a sua mulher, peça chave no deslindamento não só dos esquemas em que ele se envolveu como da cadeia de benefícios e proteções de que Queiroz desfrutou por mais de um ano para desaparecer do alcance da Justiça, esta é injustificável, neste momento.

Márcia Aguiar é foragida e esconde-se com o evidente propósito de escapar de ter de explicar ao Judiciário qual era o seu papel – antes e depois do escândalo – no caso. Portanto, está objetivamente infringindo a lei ao “impedir ou, de qualquer forma, embaraçar a investigação de infração penal que envolva organização criminosa” (Lei 12.850, artigo 2º, § 1º).

A justificativa invocada por João Noronha – com quem Jair Bolsonaro disse ter tido um “amor à primeira vista” -, a de que a presença de Márcia ao lado de Queiroz “seja recomendável para lhe dispensar as atenções necessárias” é destas de doer.

Márcia era “dispensável” quando Queiroz estava em Atibaia, ao ser preso? Ou quando o o filho, Felipe, arranjou “umas garotinhas bacaninhaspara verem “o Cruzeiro ser rebaixado tomando uma Corona aqui com limãozinho” como descrevem as mensagens interceptadas por ordem do juiz Flávio Itabaiana?

Objetivamente, o risco de fuga e o prejuízo à instrução criminal se comprovam por sua própria fuga que, se não é crime em si, é fator negativo expresso quanto ao desejo de obstaculizar a investigação. Não pode, portanto, ser “premiada” com um regime mais brando para “cuidar do marido”, como se o Dr. Noronha fosse um terapeuta de casal.

Ao menos, seja onde for que Queiroz vá cumprir a tal “prisão domiciliar” – afinal, há mais de um ano ele não tem domicílio certo – vai ter toda a oportunidade de fazer uma “DR” com Márcia.

“DR”, discussão de “rachadinha”.