Censura ao ‘Porta dos Fundos’ é uma caricatura de uma caricatura

Particularmente, ateu desde criança, não me agrada o humor com ícones religiosos. É iconoclastia fácil, seja com Alá, seja com Jesus Cristo.

E humor fácil é muito menos engraçado.

Não vi e não me atrai ver o “especial de Natal” do grupo Porta dos Fundos, embora não veja diferença entre isso e o “Código da Vinci”, todo baseado na hipótese de um filho natural ( e gerado por ato sexual, portanto) de Jesus.

É minha opinião e, portanto, não vai além de ser minha opinião, jamais ser uma determinação ao comportamento e ao gosto dos outros. (Título, aliás, de um ótimo filme da francesa Agnès Jaoui sobre diversidade, tolerância e respeito)

Esta história é velha para nós, que a tivemos com mais arte e metáfora na proibição do “Je vous salue, Marie”, de Jean-Luc Godard, em 1985.

Repare, 35 anos atrás.

O que era um discussão metafórica, como a do filme, está, hoje, numa discussão sobre caricatura.

O desembargador que a censurou deve seu cargo a uma governadora explicitamente evangélica, Rosinha Garotinho, que o indicou ao Tribunal e Justiça quando era um advogado integrante do tribunal da….CBF. Campanha na qual, segundo está nos anais do Conselho Nacional de Justiça, teve o apoio de ninguém menos que Eduardo Cunha, segundo consta em publicações arquivadas no CNJ.

Quando a censura se afina com seu pensar, aplica-a. Quando a ofensa é proferida contra quem acha desprezível, como as que fez Jair Bolsonaro aos homossexuais, no CQC, quem afina é ele, dizendo que, como é humor, pode tudo:

“Não vejo como, em uma democracia, censurar o direito de manifestação de quem quer que seja. Gostar ou não gostar. Querer ou não querer, aceitar ou não aceitar. Tudo é direito de cada cidadão, desde que não infrinja dispositivo constitucional ou legal”.

É a este tipo de gente que se está dando espaço para posar de defensor “da família” e “da moralidade”.

Como são desumanos, agarram-se a uma pretensa defesa de Deus.

As lutas dos anos 80 pela liberdade de expressão estão francamente ameaçadas por esta submissão de ordem pública à religião e aos picaretas que dela se aproveitam.

É obvio que essa liminar idiota vai cair em poucas horas.

Ainda somos, apesar de tudo, o país que gerações lutaram para tornar livre.

Mas que o moinho do obscurantismo está se movendo, isso está.

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