Bolsonaro e o vírus: contaminação cruzada

Um dos apresentadores da Globonews, Otávio Guedes, vem batendo num ponto que é decisivo para que se entende o quanto têm a ver a explosão de casos do coronavírus e a explosão da crise política, com as sucessivas demissões de Luiz Mandetta, de Sérgio Moro e o impasse sobre a nomeação de Alexandre Ramagem para a Polícia Federal.

Ele lembra que os números de hoje sobre a epidemia se referem às contaminações ocorridas, em geral, há 14 dias, quando recém se iniciava o torvelinho de loucura no governo da República.

Nos dias 9 e 10 de abril, em completo desrespeito não apenas à proibição de aglomerações públicas como às mais básicas precauções de segurança, Jair Bolsonaro fez passeios em Brasília, reunindo simpatizantes, indo a uma farmácia e a uma padaria.

Foi a senha para que a quarentena, que caminhava com progresso no Rio de Janeiro, em São Paulo e onde mais havia sido decretada por governadores e prefeitos começasse a desandar.

Aquela semana inteira foi dedicada a “detonar” o Ministro da Saúde, paralisando o ministério pela mudança e pela indicação de um ministro que, dando voltas e mais voltas, até agora não foi capaz sequer de pronunciar a simples frase “fique em casa”.

Na semana seguinte, foi a vez de esticar a corda com Sérgio Moro. E novamente tirar a atenção da sociedade, que deveria estar voltada para o imenso crescimento do número de casos, para assuntos políticos, sem que em nenhum momento deixasse de culpar os governadores e prefeitos pelos efeitos econômicos, drásticos no mundo inteiro.

O que vem pela frente é assustador: a maior cidade do país multiplicou por cinco, nos últimos dias, o número de notificações de infecção pelo coronavírus quase quintuplicou e chega agora a 3.400 por dia.

Bolsonaro e os militares que lhe servem de interessadas babás de menino malvado têm direta responsabilidade nesta explosão de doença e morte.

Este presidente desatroso, embora não logo, passará. Mas o Exército brasileiro ficará eternamente com a mancha de ter servido de cúmplice a um genocídio, porque lhes teria bastado, sem golpe ou violência, apenas comunicar a Bolsonaro que não apoiariam um política de subversão das ordens de quarentena e que se pronunciariam em favor do isolamento social e pela mobilização de suas disciplinadas (ainda) tropas para ajudar na logística, na desinfecção e no transporte de meios para a área de Saúde.

Ninguém quer tornar vermelha nossa bandeira, mas acabaram por manchar com sangue o verde-oliva de suas fardas.

 

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