Boca, River, China e EUA. O futebol e o G-20

Querendo ou não, todo mundo está acompanhando o espetáculo dantesco que se tornou a final da Libertadores da América, no jogo que já ninguém sabe se irá acontecer entre River Plate e Boca Juniors, que deixou em segundo plano o outro “campeonato” que se joga em Buenos Aires, o G-20, entre Estados Unidos e China.

Para o primeiro, o sempre “Dominadores da América”, nunca fomos um parceiro comercial importante, mas uma área a se manter politicamente dócil para não desfocar os esforços norte-americanos de onde realmente lhes importa.

Para o segundo, ao contrário, somos – toda a América Latina – uma área apetitosa, pelas possibilidades de expansão comercial rápida. No início do século, a soma de exportações e importações brasileiras para a China pouco passava de US$ 2 bilhões. Esta ano, nos dez meses até outubro, passaram de US$ 83 bilhões, com saldo de US$ 23 bilhões a nosso favor. É “só” perto de 40% de nosso comércio exterior.

Sem contar, claro, os investimentos: com a crise e o barateamento dos ativos brasileiros, os chineses passaram a comprar empresas brasileiras (ou parte delas) em grande escala:  US$ 20 bilhões nisso, só no ano passado. Na área de energia, quase todo o investimento externo foi deles.

Pois em meio a isso, os  dois maiores times sul-americanos, Brasil e Argentina, que deveriam estar interessados em obter as melhores posições possíveis do encontro de gigantes, entram mal em campo.

Murício Macri, presidente argentino, vai mal das pernas com índices de popularidade “temerários” (abaixo de 10%) e só não vê Cristina Kirshner consagrada porque lá, assim como aqui, atirou-se contra ela o Judiciário. O país vive uma crise de perda de poder de compra (a inflação está estimada em 45% este ano) e está, de novo, pendurado no FMI.

O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, comanda um time que, antes mesmo de entrar em campo, já sacode bandeirinhas norte-americanas, afinal.  Oferecidos, mostramos a continência e o boné em praça pública, certos de que seremos recompensados por isso com a condição de “aliado preferencial” de Donald Trump. Não é preciso muita experiência para saber no que isso dá.

Os chineses, perdoe-se o trocadilho, já mostraram que têm os olhos bem abertos para os assanhamentos brasileiros. Como diz hoje no Estadão a economista Monica de Bolle, longe de ser uma esquerdista, não vão se importar enquanto os “Bolsos” falarem contra a ONU, o New York Times e a “dissolução da família”.

Mas o alinhamento total ao governo americano implica em tomar partido na guerra comercial evidente em que este se lançou contra a China. E só alguém muito tolo acha que o gigante oriental não retaliará, ao menos com um discreto afastamento, até porque o peso do Brasil na diplomacia mundial está longe de ser o que era no início da década e nos tornamos uma presença a ser evitada nos países da Europa, que querem tudo, menos a proeminência de uma folclórica extrema-direita tropical, às voltas que estão com seus próprios neofascistas.

O encontro do G-20, ao contrário de Boca x River, não é uma final e caminha para ser apenas uma formalidade. Mas a disposição dos governos latino-americanos de se comportarem como torcida aguerrida, barras bravas dos EUA,  só vai nos enfraquecer. E nos ajudar a perder o mando de nosso próprio campo.

 

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