“Agora a coisa vai” vira fundamento da economia

A Folha traz, na manchete do seu site, a manchete com uma inescondível ironia: “Economia brasileira tem em 2020 o 3º ano de ‘agora vai’.

Dias atrás, aqui no blog, mostrou-se o quanto é antiga a cantilena.

As razões elencadas na matéria ou não se sustentam ou simplesmente, não existem.

Não procede a informação de que os anos de 2017, 18 e 19 tenham sido os piores para a economia mundial. Ao contrário, ficaram bem acima dos registrados no biênio 15/16. Agora, sim, é que ameaçam cair, como a própria Folha publicou em outubro, no diagnóstico da nova chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, ao dizer que “o crescimento do comércio global está em ponto morto”.

Os índices de valorização das ações (32% na Nasdaq; 29% do S&P 500, 23% no Dow Jones e, aqui na Bovespa, 31%) seguem impávidos no “padrão bolha”, descolados do crescimento da economia real, dez vezes menor. Reeleição de Donald Trump e pacificação nas relações comerciais EUA-China são os dados do momento, mas sujeitos a trovoadas, chuvas e até a temporais.

Até agora, nada autoriza dizer que o leve espasmo positivo dos indicadores de atividade econômica internos não reflitam, apenas, a injeção de recursos na economia provocados pela liberação de recursos do FGTS e do PIS, antecipando dinheiro que entraria mais tarde em circulação e minguando saldos para empréstimos que estariam sendo feitos via FAT e à construção civil, nas faixas subsidiadas. Como toda antecipação, os efeitos futuros são negativos, ainda que os imediatos possam ser necessários e positivos.

No emprego, as “melhorias” são, basicamente, as proporcionadas pelo trabalho informal. Com reforma e tudo, isso agrava o déficit previdenciário e empurra para baixo a sustentabilidade das atividades formais.

Igualmente, também não se pode apostar cegamente que a redução dos juros – que não repercute significativamente no mercado real de crédito a pessoas a empresas – vá provocar um surto de investimentos ou consumo, até porque os sinais disso são modestos. O spread bancário – diferença entre o custo de captação e o de empréstimos – no segmento de recursos livres foi a 30,7 pontos percentuais, acima do patamar de 30,3 pontos de outubro.

No “front” inflacionário, depois da disparada de dezembro, é provável um “alívio” em janeiro, mas nem tão grande; E como o índice que “sai” da conta da inflação em 12 meses, o de janeiro passado, a taxa anual passará a cerca de 4,3% , bem próxima de deixar em zero a rentabilidade dos títulos atrelados à Selic. Qualquer abalo imprevisto pode gerar ruídos nos investimentos financeiros.

Por último, abalos não tão imprevistos podem vir do “fator Bolsonaro”, Sobre este, perdoem, não me arrisco a fazer. Parece inevitável que haja desdobramentos do caso das “rachadinhas” logo no início do ano, e um provável fracasso em matéria de reforma tributária num ano eleitoral.

O “agora a coisa vai” continua sendo “torcida”, mais que análise econômica.

É como esta história do “empreendedor de paçoca” (são tantos que é evidente a jogada de marketing): querer não é poder.