A vida fora de Tom

Tom Jobim, cuja morte completa hoje 25 anos, nunca foi um artista de rótulos políticos.

Nem precisava, já o trazia no nome: Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

Correr mundo, conhecer a fama e o sucesso em terras outras, nunca tirou a identidade e o amor pelas coisas daqui, fossem bichos, plantas ou gentes.

Foram eles e elas que lhe fizeram alma cantar ao ver sua cidade.

Que sempre teve chagas, feridas, dores, injustiças gritando a ouvidos surdos.

Mas nunca tanta estupidez reunida, tanto desprezo pela vida, pela liberdade, pela tolerância, pela alegria que transformou carioca em algo mais que um gentílico, um jeito de ser, portos abertos às nações amigas.

O que resta disso não entende o que nos fizeram, nem o que nos fazem.

Um pastor abúlico que detesta festas; um troglodita inflado que detesta vida humanas, um chefe de milícias que urra ódios.

Mortes comemoradas como gols, crianças mortas, normal, miséria é o que suja a rua.

Graça só nas igrejas e na calçada desgraça, assim, feia e apavorante, para que não de tenha de olhar e, assim, ser feliz e alcançar a luz dos cegos.

E a gente mudo diante dos bárbaros, como os passarinhos que o Tom amava nos versos do Chico: muito cuidado, bico calado, que os homens vêm aí.

O Rio de hoje, porém, faria chorar, em vez de cantar, a alma de Tom Jobim.

Aquele delicado maestro ensinou um dia que é impossível ser feliz sozinho.

 

 

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