A hora de uma aliança, por Luís Costa Pinto

Adolf Hitler nunca escondeu que o seu objetivo central com a guerra que iniciou em 1939 ao anexar a Polônia e a Tchecoslováquia à Alemanha era subjugar, na verdade, a Inglaterra e a França.

Enlouquecido pela revanche da Primeira Guerra Mundial, empurrado por um povo alemão machucado, empobrecido e humilhado pela derrota de 1917 e os reflexos econômicos dela decorrentes, restaurou o poder de fogo das Wehrmacht e lhes deu condição para sair conquistando territórios fora das fronteiras alemãs.

Dentro do país, financiou e aparelhou a Schutzstaffel, ou SS, a organização paramilitar que tocou o terror levantando as bandeiras ensandecidas dos nazistas. A SS terminou incorporada ao aparato do 3º Reich.

Entre 1939 e 1942 Hitler, com suas divisões Panzer, as blitzkriegen, o implacável poder de fogo da Luftwaffe e os potentes foguetes V-2, que permitiam o bombardeio de Londres a partir de bases militares montadas no continente europeu, os nazistas davam a impressão de que eram capazes de vencer todas as batalhas e pôr o mundo livre de joelhos e escravizado.

No verão de 1941 o führer parecia se sentir tão forte, tão invencível; estava tão certo da vitória sobre os ingleses – afinal, os franceses capitularam facilmente e a Linha Maginot revelara-se um paredão de papel e lama –; que cometeu um erro estratégico gigantesco e permitiu que um aliado, o Japão, perpetrasse outro logo depois. Em junho daquele ano o Exército alemão abriu uma frente de batalhas com a União Soviética. Primeiro, as divisões Panzer pararam diante da colossal resistência encontrada em Leningrado (São Petersburgo). Depois, atolaram diante de Moscou por obra do “General Inverno”. As duas frentes – leste e oeste – drenaram recursos, homens e poder de fogo da Wehrmacht. Em 7 de dezembro, com o beneplácito alemão, os japoneses atacaram Pearl Harbor e empurraram os Estados Unidos para a guerra da qual metade de seus cidadãos desejava fugir.

Ao unir a direita e a esquerda do mundo, Hitler sucumbiu: em seu projeto totalitário, extremista, não cabiam instituições nem liberdades individuais. Tampouco eram confiáveis os acordos por ele celebrados. Os chanceleres Joachim Ribentropp, da Alemanha, e Viatcheslav Molotov, da URSS, fecharam em agosto de 1939 o Pacto de Não Agressão Nazi-Soviético. Deu no que deu. O mundo se uniu para derrotar Hitler, seus marechais, a Wehrmacht, a Luftwaffe e a SS numa espécie de Frente Ampla dos aliados. E venceu.

Jair Bolsonaro é um Sargento Tainha, das tiras de quadrinhos, com cérebro de Fucker and Sucker, os policiais eternizados pelo Casseta&Planeta. Mas, ao se olhar no espelho, ele se enxerga um Adolf Hitler e tem certeza que está cercado pela camarilha da Força Nazista recriada. Nela, por exemplo, Fábio Wajgarten, da Secom, é Joseph Goebbels; o nanogeneral Heleno é uma espécie de reencarnação de Erwin Rommel e a doidinha Damares é a Eva Braun rediviva.

No canil do Alvorada, onde alimenta os cachorros-doidos do bolsonarismo ensandecido, Bolsonaro celebrou esta manhã o que pode ter sido o grande erro estratégico do projeto de dar o autogolpe e tornar-se um führer do hospício em que transformou o Brasil: a ação da Polícia Federal no Rio de Janeiro contra o governador Wilson Witzel.

Witzel, consigne-se desde já, é uma criatura desumana indefensável pelo vezo de faxineiro étnico com que tem exercido o mandato no Rio de Janeiro. É, também ele, fascistinha de botequim de Zona Sul. Surfou na onda do lavajatismo e se elegeu governador assim como Bolsonaro virou presidente: sem nenhum projeto macropolítico, sem tomar conhecimento das desigualdades sociais abissais do país. Enfim, tão desqualificado quanto o outrora aliado de campanha agora convertido a algoz.

Contudo, a instituição “Governo de Estado”, o sistema democrático, a separação harmoniosa dos Três Poderes e o sistema de freios e contrapesos do Estado de Direito não podem concordar, compactuar e calar ante o que se passou hoje no estado do Rio de Janeiro. Alçada à condição de “Polícia Política”, açulada por uma deputada inqualificável e abjeta como Carla Zambelli, a Polícia Federal montou uma operação destinada a emparedar e calar o governador fluminense – uma voz da extrema direita que já se levantava contra as patetices de alto preço social do bolsonarismo. E amanhã será quem? João Doria? Outro governador de extrema-direita, tão nefasto em suas ideias quanto Witzel, mas que também tem uma réstia de conexão com a população de seu estado e vem se tornando outra voz de antagonismo a Bolsonaro no campo ideológico da direita? E depois de amanhã? A PF/SS vai armar o quê contra quem? Uma ação contra Flávio Dino, governador do Maranhão, líder em evidente ascensão na esquerda? Ou contra Rui Costa, na Bahia? Ou, ainda, contra o centrado Paulo Câmara, socialista, em Pernambuco? Ou, imbuída dos espíritos de perseguição da Schutzstaffel nazista, a Polícia Federal investirá contra parlamentares? Contra deputados e senadores de oposição? Ou contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, voz mais lúcida e mais respeitada dentre todos os presidentes das depauperadas instituições brasileiras? Ou, como deseja o judeu filo-nazista Weintraub, a PF vai deixar as amarras no Supremo Tribunal Federal e prender os ministros tão ensimesmados em suas togas esvoaçantes?

Wilson Witzel não merece a defesa dos homens de bem do país, e sequer saberá ser agradecido quando ela vier, mas em nome da necessária Frente Ampla que se há de formar para combater com o pé na porta e a força nas ruas a evidente crescente autoritária de Jair Bolsonaro, estamos condenados a fazê-lo.

O presidente da República não só desonra o cargo que ocupa, deixando sair daquela sua boca suja e macilenta, povoada por dentes amarelos e nojentos, os palavrões mais vergonhosos que homens públicos nunca deveriam proferir. Ele ataca o Estado Democrático ao se apropriar da Polícia Federal para promover perseguições políticas e ele atenta contra a civilidade e contra a humanidade ao pregar o armamento da população.

Ou se começa a derrotar Bolsonaro já, a partir da união da direita e da esquerda numa Frente Ampla contra o autogolpe que ele sempre almejou dar, ou sucumbiremos todos às hemorróidas trágicas e nefastas dessa pústula abjeta que enverga a faixa presidencial. É preciso entrar com o pé na porta, porque esses nazistinhas de verde-e-amarelo são frouxos. É preciso chutar e repelir os arroubos deles nas ruas, nas esquinas, dentro das instituições, onde quer que tenham posto suas patas sujas: eles correm. Eles fogem.

É urgente aproveitar a oportunidade que o erro estratégico do bolsonarismo cometeu ao lançar a direita de Witzel e de Doria no colo do centro e da esquerda, que são elos democráticos da corrente política e jogam com a Constituição nas mãos, para vencer. O Hitler de araque só fala grosso entre seus generais de pijama e no meio do Clube Militar, uma espécie de “Retiro dos Artistas” camuflado para dar diversão aos amigos senis do nanogeneral Heleno.

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